
Era 26 de fevereiro de 2020 quando o Ministério da Saúde, à época comandado por Luiz Henrique Mandetta, anunciou que o Brasil havia registrado o primeiro caso de covid-19. Tratava-se de um paciente de 61 anos, que havia voltado recentemente da Itália, país que atraía a atenção do mundo todo devido à explosão de infecções. O homem deu entrada no Hospital Israelita Albert Einstein no dia 25.
Naquele momento, havia a esperança de que, por não estarmos no inverno, como os outros países que viam a curva de confirmados ascender rapidamente, o contágio não fosse tão acelerado e tivéssemos mais tempo para nos preparar. Não foi o que ocorreu. Ao final de março, o País já somava 1 mil casos. No início de abril, ultrapassou 10 mil. E nos primeiros dias de maio, 100 mil.
O infectologista David Uip, diretor nacional de infectologia da Rede D’Or e reitor do Centro Universitário FMABC, foi considerado alarmista por alguns colegas ao estimar que de 1% a 10% da população brasileira poderia ser infectada pelo vírus. Atualmente, conforme dados atualizados pelo Ministério da Saúde no último dia 20 de fevereiro, o País acumula mais de 39 milhões de casos confirmados e 715 mil mortes.
Uip lembra muito bem do final de fevereiro de 2020. Ele foi chamado pela família daquele primeiro paciente para avaliar o seu estado de saúde – e tranquilizou a todos, afinal, o homem estava em boas mãos. Pouco depois, em uma Quarta-Feira de Cinzas, recebeu uma ligação do então governador de São Paulo João Dória, que pedia ajuda na criação, e depois na coordenação, do Comitê de Contingenciamento para Emergências para a covid-19.
“Para você ter ideia, nos primeiros casos, recorremos a medicamentos que nós não usávamos, aumentamos as doses, até remédios contra aids foram testados na covid. Víamos as pessoas morrerem sem ter qualquer possibilidade de um tratamento específico, o que gerava incerteza e desesperança. Passamos de todos os limites para tentar salvar a vida de muitas pessoas”, lembra ele, cinco anos depois.
Em meio a esse cenário – do qual tinha uma visão, entre muitas aspas, privilegiada – ele próprio enfrentou a doença. Ainda era março de 2020. “Fiquei doente, fiquei ruim, e quando voltei, dei meu testemunho na coletiva do governo, sobre o risco que corri e o medo que senti. Você ia dormir e não sabia se acordava.”
Hoje, graças às vacinas, os números de casos e mortes diários estão muito abaixo dos observados no início da crise sanitária, mas Uip frisa que o coronavírus está longe de ser um problema resolvido. Em primeiro lugar, porque continuamos registrando diagnósticos e óbitos. Conforme mostrou o Estadão, o Brasil contabilizou 57.713 casos da doença nas três primeiras semanas de 2025 — o maior registro dos últimos dez meses. Além disso, uma parcela considerável convive com as sequelas da covid longa ou viu o quadro se transformar em um gatilho para outras doenças. “A covid mudou a história do mundo. Não só do ponto de vista epidemiológico, mas em termos de resposta imune inflamatória”, analisa Uip.(Do Estado de SP)