• A VIDA NUM TANGO

    494 Jornal A Bigorna 26/01/2025 17:20:00

    A VIDA NUM TANGO

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    Santos Peres

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    Envelheço os dias nas joias

    que enferrujam gavetas,

    na fragrância perdida de um frasco

                                                                  francês,

    no deserto do relógio insistindo um tempo

                                                         que não mais...

     

    Envelheço com a chuva na vidraça,

    no pássaro perdido de seu beiral

    nesta tarde de açucenas na varanda

    e fantasmas esperando pelo chá das seis.

     

    Ah, a vida como camarim em naftalina;

    essas rendas amarelecidas... Em quais salões?

    Fotos esvaecidas: a donzela com seu bouquet

                                                                                     de peônias,

    o moço em panamá; o megafone num Gardel:

     

    “El dia que me quieras/la rosa que engalana,/

    se vestirá de fiesta/com su mejor color”.

     

    Envelheço no calendário esquecido atrás da porta

    com suas luas, santos do dia e tábua das marés;

    nas dobras da camisa do filho que partiu.

    Envelheço, com xícara sobrando para dois,

    no Palestra dele que não mais entra em campo:

                                     Og Moreira, Junqueira, Oberdan;

     

    no oratório de tantas rezas perdidas,

    promessas não cumpridas

    tantas velas na inutilidade

                                      da desesperança.

     

    Hoje...

    Essa água em copo sobre a cômoda.

    A Bíblia. O jarro. A flor.

    E esse arranjo morto.

     

    Ao lado da cama a bengala

    silencia meus passos.

     

    Envelhecer dói, Senhor!

     

     

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