
A VIDA NUM TANGO
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Santos Peres
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Envelheço os dias nas joias
que enferrujam gavetas,
na fragrância perdida de um frasco
francês,
no deserto do relógio insistindo um tempo
que não mais...
Envelheço com a chuva na vidraça,
no pássaro perdido de seu beiral
nesta tarde de açucenas na varanda
e fantasmas esperando pelo chá das seis.
Ah, a vida como camarim em naftalina;
essas rendas amarelecidas... Em quais salões?
Fotos esvaecidas: a donzela com seu bouquet
de peônias,
o moço em panamá; o megafone num Gardel:
“El dia que me quieras/la rosa que engalana,/
se vestirá de fiesta/com su mejor color”.
Envelheço no calendário esquecido atrás da porta
com suas luas, santos do dia e tábua das marés;
nas dobras da camisa do filho que partiu.
Envelheço, com xícara sobrando para dois,
no Palestra dele que não mais entra em campo:
Og Moreira, Junqueira, Oberdan;
no oratório de tantas rezas perdidas,
promessas não cumpridas
tantas velas na inutilidade
da desesperança.
Hoje...
Essa água em copo sobre a cômoda.
A Bíblia. O jarro. A flor.
E esse arranjo morto.
Ao lado da cama a bengala
silencia meus passos.
Envelhecer dói, Senhor!