
O 3.º sargento José Roberto Barbosa de Souza, o Barbosinha, de 49 anos, começou a se aproximar da política em 2018. Era o cabo Barbosa, que trabalhava nas Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). Na época, seu apoio a uma candidata do PSL foi tão intenso que o comando da unidade decidiu afastá-lo do batalhão. Dali em diante, o policial continuou a se aproximar de políticos, como do então deputado federal Guilherme Derrite, de quem fora motorista na Rota.
Ativo nas redes sociais, Barbosinha conseguiu uma vaga para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados, em 2022, pelo União Brasil. Queria fazer parte da bancada da Rota, aquela dos policiais que usam o discurso de combate ao crime para obter votos. Hoje, ele está entre os PMs supostamente cooptados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que são investigados no inquérito que já mandou para a cadeia 16 de seus colegas e ameaça outros tantos. A coluna não conseguiu contato com a sua defesa.
Para oficiais da PM ouvidos pela coluna, Barbosinha é mais um exemplo dos riscos da contaminação da polícia pela política. Foi assim que, em 5 de junho de 2021, Derrite, atual Secretário da Segurança de São Paulo, recebeu no estúdio em que gravava o programa Papo de Rota o cabo Barbosa. “Olá amigos do nosso canal, Papo de Rota! Hoje é um dia especial; eu estou muito a vontade, que eu estou trazendo um grande amigo aqui, um grande policial, um grande piloto de Rota. Depois de muita insistência, está aqui o cabo Barbosa, o Barbosinha.” O convidado responde: “Tamos junto, comandante!”
Começava ali uma conversa que durou 1 hora e 13 minutos. O cabo contou como entrou na PM, depois de trabalhar em uma agência de carros. Ficou 26 anos no “trabalho operacional”. “Nós trabalhamos juntos na Rota, no mesmo pelotão”, contou Derrite no vídeo. O então deputado pelo PP – hoje ele está no PL – entrou, em seguida, em um tema caro para a bancada da Rota. “Policial Militar que vai pra cima e troca tiro, ele é punido e é retirado da rua. É isso que aconteceu comigo e com o Barbosinha”, explicou Derrite, diante da aprovação do amigo.
A partir do 18.º minuto, Derrite entra na parte mais forte do Papo de Rota com uma pergunta: “Barbosinha, qual foi a primeira troca de tiro da sua carreira?” E o policial começa a relatar uma perseguição na Marginal do Tietê, que terminou na morte de um bandido. “Parabéns pela ocorrência, Barbosa”, concluiu o ex-comandante.
Depois que a coluna pediu informações à Secretaria de Segurança sobre Barbosa, o vídeo do podcast de Derrite teve seu status modificado no Youtube – antes público, ele passou a ser privado, tornando-se indisponível. Esta coluna republicou-o para que os leitores possam ter acesso à informação. Em um segundo vídeo, o sargento contou como “cancelou CPFs” – gíria para matar bandidos – sob o comando do secretário. O vídeo também está aqui.
Carreira na zona leste de São Paulo
Barbosa cresceu na zona leste da cidade. Trabalhou no 8.º Batalhão da PM, responsável pelo patrulhamento do Tatuapé, mesma região que, desde 2018, tornou-se o epicentro da guerra mafiosa que provocou a morte de chefões do tráfico do PCC. Todos viviam ali no bairro, assim como o delator da facção, o empresário Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, executado por policiais militares a soldo dos bandidos, no aeroporto de Guarulhos, em 8 de novembro de 2024.
Em 2008, após prender uma quadrilha de ladrões de carros, o então cabo Barbosa foi convidado para se apresentar na Rota. Era um prêmio. E lá permaneceu durante dez anos. Foi no Batalhão Tobias de Aguiar, o BTA, que conheceu o tenente Derrite, de quem foi motorista e com quem trabalhou durante três anos e meio.
Em 2018, Derrite se lançou candidato e foi eleito deputado. No mesmo ano, segundo a Corregedoria da PM, Barbosinha teria se aproximado da candidata Joyce Hasselmann, depois eleita deputada federal pelo PSL. Foi isso que lhe custou o afastamento da Rota. Voltou para o 8.º Batalhão. Em 2022, passou para a reserva e se candidatou a deputado federal pelo União Brasil. Na cédula, ele era o Cabo Barbosa. Foi 458 º mais votado, com 2.350 votos, bem distante dos 89 mil votos necessários para eleger um candidato pelo seu partido.
Até aí, tudo parecia tranquilo na vida de Barbosinha. Mas, em abril de 2024, o Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público Estadual, recebeu uma denúncia sobre a suposta cooptação de policiais da Rota e de ex-integrantes da unidade para trabalhar como seguranças de megatraficantes do PCC. Eles estariam dando proteção aos bandidos, fornecendo informações de operações sigilosas e, até mesmo, executando desafetos da facção. O ofício datado de 14 de abril foi assinado pelo promotor Lincoln Gakiya.
Não era a primeira vez que o Gaeco recebia esse tipo de denúncia. Em 8 de abril de 2022, o grupo produziu o Relatório Informativo nº 11. Ele tratava de conversas de diretores da empresa de ônibus Transwolff. Terceira maior empresa do setor a operar na capital, ela seria alvo em 2024 da Operação Fim da Linha, que apurou a captura de parte do sistema de transporte público de São Paulo pelo PCC.
Os promotores investigavam a denúncia de que ela lavava dinheiro da facção e verificavam a relação dos diretores da Transwolff com o então vereador Milton Leite, o todo-poderoso do União Brasil em São Paulo, partido pelo qual Barbosa disputaria uma cadeira na Câmara dos Deputados. Foi assim que os promotores surpreenderam mensagens do sargento da Rota Alexandre Aleixo Romano para diretores da empresa de ônibus.
Romano trabalhava em uma companhia da Rota até se envolver em um caso de morte em decorrência de intervenção policial, ou MDIP, no linguajar policial-judiciário. Foi transferido para a sala de rádio do batalhão. “Estamos à disposição. Sempre que você quiser proporcionar esse momentos para a sua família, independentemente do dia, é só acionar a gente”, escreveu o policial para um dos diretores da empresa, em mensagem interceptada pelo Gaeco.
Após a descoberta de seu bico como segurança da direção da Transwolff – parte dela foi presa na Operação Fim da Linha –, Romano foi obrigado a se afastar da Rota. A decisão ficou registrada em outra mensagem interceptada. Também o então cabo Barbosa, segundo a apuração da Corregedoria, participava do esquema de segurança na empresa, cujo processo para a rescisão do contrato com o poder público foi aberto em dezembro por ordem do prefeito Ricardo Nunes (MDB).(Da Folha de SP)